domingo, 17 de maio de 2015

9

Diário da gorda, nona entrada.

Nesta semana que passou a gorda teve uma visão. Enquanto ela estava correndo nas esteiras da academia, lutando dura e bravamente (pra ficar saudável? Não, pra ficar magra, rélooooo--uooooooo-uuuuu), ela viu um caminhão de porcos passando para uma destas indústrias alimentícias. Os porcos, coitados não tinham muita noção do destino deles e a gorda ficou compadecida com a cena, daqueles porquinhos divididos nas pequenas celas, enclausurados num pequeno espaço de morte ali por ali sendo transportados praquele fim.

Depois a gorda pensou uma coisa um tantinho banal. Aqueles porcos eram ela mesma. E seus colegas. E amiguinhos e inimiguinhos. E todas as pessoas ao redor. Mas num sentido bem específico, que dessa vez não tinha nada a ver com a gordice... eram as pessoas que iam pro trabalho todo dia, o trabalho das pessoas é a cela do porco. O destino dos porcos é morrer pra sustentar um pequeno sistema de privilégios de homens com gostos refinados. O destino do trabalho é gerar bem-estar a outro pequeno grupo (cada vez mais pequeno) de gostos refinados, a gorda pensou. E ela passou a odiar/amar trabalho mais do que o que ela já odeia/ama. Odeia porque se o trabalho gera bem-estar, este bem estar vai ser distribuído de cima pra baixo e vai ficar concentradíssimo. Ama porque ela gosta de aprender sobre física, gosta da física (que é a profissão da gorda).

A gorda pelo menos pode odiar/amar o trabalho. Quanto aos porcos não sabemos o que acham de suas celas.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

8

Diário da gorda, oitava entrada.

Hoje a gorda foi (fui) no banheirão babado, aproveitar que tava no centro dar uma ciscada por lá. Eis que entra um boyzinho todo metido e começa a gritar com ela... "Seu cheira-bosta, viado de merda, tá procurando sacanagem aqui?"

Há uma gama de respostas que a gorda pensou pra ocasião (na verdade pensei nestas respostas depois, na hora só pensei na resposta que dei e mais nada. E claro fiquei com medo). Três versões se destacam no pelotão do campo das ideias, a sincera, a sado e a fóbica-deu-um-loop-pra-loucura. A primeira e mais clássica seria:

- Isso não é nada meu querido, você parou por aí porque não me viu peladinha, ouviu? Se tivesse visto, eu ia muito bem completar: esqueceu de me chamar de gorda!

Outra opção seria:

- Sim, sim, meu bem, o mesmo que você, mas sem essa homofobia escrota, e sem precisar negar meus desejos, meus corpos, minhas pelancas, já aceitei tudo isso, tudinho, tudinho, sou toda-toda, me sorvo das minhas estranhas, me sorvo todo guloso da minha nojeira, de tudo isso que você chama de abjeto, e que é o que eu sou, essa delícia que sou, delícia pra mim mesmo, tá ouvindo belezinha, estou aqui oferecendo este corpo que é tudo que tenho, agora muito bem, passe a violentá-lo JÁ, ME POSSUA NESTE INSTANTE, de preferência daqui pra frente com a violência física, já que a verbal, já fez check point.

Ainda a gorda podia ter ido por uma mais clássica e dito:

- Você está enganado, eu acho nojento essa bandidagem viada, esses viado tudo podre que vem aqui procurando sacanagem, que ravia dessa pilantragem dos infernos, poluindo a praça e a vida pública, deviam era morrer, morrer muito, morrer demais, majoritarimente morrer, morrer de tesãããããããããoooooo!

Mas como dito no começo, a gorda só disse pra bicha homofóbica gritosa: "tô mijando, me dá licença", e a bicha homofóbica saiu gritando sozinha as mesmas coisas parecendo um Goblim covarde que não tem muito a perder na vida... (E que vida sem-graça essa em que a única emoção só pode ser tirada de uma violência homofóbica).

O que acontece no banheirão fica no banheirão, disse um amigo da gorda. Pois é bem verdade, inclusive os crimes.

(Se bem que não né... a gorda tá aqui contando tudinho, afinal).
Bereniiiiiiiceeeeeee que stás no céu! (Ai errei, era a Leila). Me proteja Berenice, me deixa cair em tentação mas livrai-me do mala-man!

Amem Berenice!

7

Diário da gorda, sétima entrada.

Querido diário...
A gorda anda trabalhando mais que camelo no deserto sem água e ar-condicionado. Um stress essa vida de funcionário público dela. É tanto stress que entre uma pegação e outra, a gorda sonhou umas duas semanas atrás com uma barata enorme andando pelo quarto essas em estilo Gregor Samsa, (ou seria joaninha), essas que facinho levam o roupeiro da gorda, dois por dois nas costas. Mas que coisa Berenice, que faço com essa barata.

A gorda olhou pra barata e a barata
"-Eu vou voar tá?"
"Mas hein??"

A gorda olhou de novo a barata fazendo um movimento com as asas assim que nem cavalo limpa os dentes e começou uma conversa de tête-à-tête com a barata.

"Mas e o que?"
"O que o que?"
"Que você tá fazendo atrás do meu guarda-roupa? Favor deixar este quarto agora, sou uma rainha soberana não aceito insultações de seres menores, nem menos ocupações do meu espaço que é meu, meu quarto minhas regras."
"A senhora tá loka, perturbada, cheirou corra-lola de sapateiro, comeu cocô, bebeu água do vaso, isto aqui é um sonho e eu só vim te dizer que vou voar tá?"
"E porque veio, porque, que tá fazendo aqui, não tem comida, não tem nada pra você aqui."
"Tô andando por aqui ali, pesquisando, experimentando, sendo curiosa."
"Me deixa."
"Vou voar tá?"

Daí a goda pulou pra outro sonho, que já não se lembra mais. Só lembro de ter acordado cansado e "tá, pensa na Macabea, se veste toma banho vai dar suas aulinhas e representar de novo esse papel de ser, com muita obediência."
Vamos pra aula Berenice.