sábado, 10 de outubro de 2015

14

Diário da gorda, décima quarta entrada.

Misigura Berenice, misigura que eu vou cair nesta retrete!
Querido diário, a gorda tá um ó! O ó do borogodó... Trabalhando, trabalhando, trabalhando, estressada e tudo o que. Me deixe trabalho, saia deste corpo, ele pertence à preguiça! À lascívia e aos vícios! Saia virtude! Essa virtude, coisa de homem branco de terno "que trabalhador que era", URGH! Morra!

Bem, mas não bastasse isso, tô cheia das crises intestinais. Assim, uma intolerância à lactose nas alturas. É incrível, diário, a gorda: intolerante! Mas não é com sua própria gordura dessa vez, nem com a dos outros, com a lactose... (A irmã da gorda fala que todas as intolerâncias tem um fundo auto-imune, e tudo que é auto-imune tem um fundo psicopatológico de auto-extermínio, auto-mutilação. Mas haja Lacan pra dar conta dessa teoria. A gorda mesmo não dá... no máximo ela vai no banheiro ter uns quilos de diarréia).

Pois bem, no meio disso tudo vamos fazer um banheirão né? Porque os intolerantes são também filhos de Iechibaba e merecem putanhar...(Iechibaba foi quem transformou a Rusalka no demônio das águas, mas isso é outra história). Mas não é que... no meio dessas cólicas monstruosas, Iechibaba sorriu pra gorda, e mandou assim o banheirão mais babado de Chapecó.

A gorda, foi, encontrar um bofinho... vamos pro privé? Vamos, claro! A gorda se pegando com o bofinho e tudo e tal, chega um segundo... Venha, venha, venha, tem lugar pra nós três. Ui.

E foi isso. Iechibaba arrotando satisfeita. 
Berenice, Ela decidiu me mandar todos os banheirões não acumulados tipo mega-sena. A gorda se jogou naqueles corpos. Com intolerância ou sem, vamos pro banheiro.

Boa notchy Berenice.

13

20/09/2015

Diário da gorda, décima terceira entrada.

Uma Elegia pra Dilmar.
Em um dia qualquer, um domingo qualquer, um banheiro qualquer. (Não. Era o da rodoviária, a gorda lá garimpando uns bofin). Bem aleatório. Mas aí entrou no banheiro um boy daqueles bem parecidos com uma paixão estonteante que a gorda teve, logo no começo de minha graduação, em 2000.

Que banheirão que nada, a gorda não fez mais nada que não escutar Lady Macbeth sonambulíssima "Arabia intera, rimondar se piccol mano con suoi balsami non puòi!" e ficou delirando junto, vamos deixar esse banheirão pra lá. Sozin delirando no banco de rodoviária entre anúncios de ônibus e gente estranha passando.

15 anos atrás quando não tinha preguiça das paixões e tantas vezes e tão gratuitamente a gorda se apaixonava. Choraaaaaaavaaaaaaaaaa... Escutava Chopin, Faurè, Ravel, Verdi. Tooooooda dramática. (Há que se dizer, à gorda lhe parece que... o turning point destas paixões foi conhecer a personalidade mítica, Lady Macbeth... Era como conhecer alguém como a Narcisa dizendo "ai que absurdo!" Pense na força de uma pessoa dramática, apaixonada e loka, loka, mais loka que a Shakira! Haja... foi ali que a gorda começou a se desapaixonar).

No meio de tanto Ravel, e tanto Macbeth, havia essa paixão, que de aterradora por este rapaz lindo, que lindo que ele era, Dilmar de seu nome.  Foram lá uns bons dois anos pensando neste Dilmar ai gorda, que tempo tão longo desperdiçado! Podia tar limpando a casa e lavando a roupa pelo menos. Malhando quem sabe. Era Dilmar seu nome.

E não aconteceu nada né, nem se quer este rapaz ficou sabendo que a gorda era apaixonada por ele... Ou sabia lá no fundo dos olhos da gorda, colhia uma paixão bem delicada, tipo Blimunda Sete Luas colhendo vontades de Baltasar Sete Sóis em formato de nuvens. Mas aqui também era só vontade louca da gorda em transformar essa paixão terrível em um momento eterno, memorável, interminável, saramaguiano, sanguinolento que fosse, que tivesse a força da dor e da delícia que a paixão deixaram nela.

Coisa boba, todas as paixões são fugazes. Ou na verdade a paixão só pode acabar por não se consumar ou no suicídio, porque paixão que vira amor, não virou nada... Paixão de quem se apaixona e é correspondido não tem graça nenhuma, e é o que a gorda aprendeu em seus delírios com Lady Macbeth.

O tempo passou, passou, passou, foi deglutindo pouco a pouco a paixão das entranhas da gorda. Transformando sua loucura. Adaptando. Deixando pra lá. Transformando em integrais de invariantes de mecânica dos fluidos. Ou mesmo em relatividades gerais, em perturbações gravitacionais.

A gorda fui pra casa com a tristeza no bolso. Ouvindo uma elegia de paixão que teve por Dilmar, uma elegia de Dido e Eneas, Dido abandonada por Eneas... morre, esvanece.

"Remember me, REMEMBER ME, BUT AH! FORGET MY FATE!"

(Dizia o texto todo,
"Thy Hand Belinda, Darkness shades me!
On thy bosom, let me rest...
More I would, but death invades me!
Death is now a welcome guest!
When I am laid, am Laid in earth,
may my wrongs create no trouble in thy breast
Remember me, but ah! forget my fate".)

É isso. O que morre por fim, a paixão. E me recomenda: "que meus erros, que meus sentimentos mais profundos não te criem mais dores no peito, deixa eles irem, guri... te lembra de mim, te lembra sempre, nunca te esqueça, mas ah! Esqueça sim do meu destino..."

Epitáfio

Por onde andará Dilmar. Que fará. Tem família, tem filhos? Uma filha de nome Clara? Clarice? Onde estará, onde estará, que dirá, que dirá, que diria se um dia me ver de novo. Oi tudo bem, como passou a vida? Você acabou, se graduou, casou, virou assassino, que fez de sua vida. Estranheza.

Chamo seu nome baixinho, bem baixinho. Quase um sopro, murmuro. Chamo com mais força, Dilmar, Dilmar. Chamo de longe. Já sem obter resposta.

Silêncio.

Berenice... a tristeza reina (rainha) no blog da gorda. Vamos dormir pra chorar ou ao contrário agora.